[Crônica] Amor é dar ou recusar?

Goethe dizia: “O verdadeiro amor é aquele que permanece sempre, se a ele damos tudo ou lhe recusamos tudo”. Será? Existe amor que resista à recusa total? Ao ler isso, pensei: “Como assim? Dando ou recusando tudo se constrói um grande amor? Como sustentar o amor sobre negativas?”

A análise vem à cabeça como uma bomba que explode nas guerrilhas ou uma avalanche de água fria que inunda o coração. Jamais alguém, senão quem acreditou nesse pensamento, seria capaz de imaginar um amor desenhado com uma recusa total do afeto ou da admissibilidade de verdadeiramente estar amando ou, pelo menos, apaixonado.

clara

Darmos tudo, o melhor de nós, quando amamos é mais do que natural. O ser humano é frágil quando trata das armadilhas do coração. Pensamentos diários, imagens como uma incrível arquitetura mental, projetos mirabolantes, saudade, dores, prazeres ocultos, sentimentos confusos, batimento acelerado dentro do peito, mãos geladas, intrépidas provocações… É o que chamamos de normal, quando há amor.

Não há como recusar ou negar todas as sensações que fazem parte de algo real que grita, salta do olhar, faz calar as palavras, que quando por perto acalenta, envolve, satisfaz e faz sorrir.

Ora, na cabeça e no peito de alguém que acredita nessa possibilidade, a ponto de descrevê-la e a divulgar, por certo é válida. Só pode ser.

Mas, que triste sofrimento, que solidão, que perda de tempo e sentido pela vida. Quanta instabilidade e imaturidade! Será? Ou quem assim consegue viver é maduro demais? É sofrido o suficiente para não se entregar? É tão inseguro que finge para si próprio não acreditar no amor, na paixão ou no prazer? Sabe-se lá.

É preciso parar de questionar e responder: é claro que não deve ser fácil conviver com esses ‘fantasmas’ que pairam, corroem e sufocam aquilo que poderia lhes fazer o bem e lhes preencher a alma.

A recusa ao amor é o mesmo que pairar sobre nuvens densas, soltas, sem destino ou razão para chegar a alguma conclusão. A recusa ao amor é navegar em um oceano sem fim, até morrer afogado nas ondas que escolheu.

A recusa ao amor é ter dúvida sobre a própria existência, sobre ser ou não ser, sobre querer ou não querer, sobre se entender ou, sequer, saber se definir. É optar por sorrir quando quer chorar… É partir querendo chegar!

Nada disso vale a pena. Prefiro pedir desculpas e discordar de Goethe. E dar tudo a um verdadeiro amor assumindo a existência plena, alegre e realizada!

clara