[Divã] Vergonha de quê?

Inverno acabando, primavera chegando e o olho já mirando o verão. Quando falamos em verão, muito além da limpeza do filtro do ar condicionado, começamos a reparar também nas gordurinhas excedentes, nas novas marcas de celulite – que, aliás, só as mulheres enxergam.

Isso tudo acaba causando um distanciamento de si, encondendo-se dos seus próprios olhos e do seu parceiro e se comportando quase como uma vestal com seus sete véus. É um tal de luz apagada e roupas que escondem o corpo, e isso acaba, sem dúvida, repercutindo na vida sexual dos casais. Mas, precisa ser assim?

marcia

Gordo, magro, baixo ou alto… Como diria minha avó: tem sempre um chinelo para um pé cansado. Apesar da falta de romantismo da introdução, o importante é falar de diversidade, assunto com o qual já estamos acostumados. Inclusive, a ideia de que o modelo ideal existe já está um pouco balançada.

Infelizmente, na sexualidade, essa expressão de corpo e alma que atende pelo desejo ainda está subjugada pelo invólucro – o corpo e suas nuances. E é ainda mais forte por parte das mulheres, reforçando algo que deveria estar longe da independência conquistada em pleno século 21: almejar a perfeição para ser aceita.

Associar desejo, autoestima, abertura para o encontro sexual com a imagem de um corpo perfeito é uma autoflagelação feminina. A perda da possibilidade de realização sexual fica restrita, causando consequências emocionais.

O mais incrível dessa questão é que para os homens a percepção do corpo feminino não passa pelos mesmos aspectos com os quais as mulheres tanto se incomodam.

Seios flácidos, celulite, uma gordurinha aqui ou ali, podem ser até aspectos estimulantes ou mesmo despercebidos, desde que essa mulher tenha a capacidade de entrar em contato com seu desejo e expressá-lo no encontro sexual, na entrega e no gozo de quem está por inteiro vivendo a situação.

Nada disso tem a ver com a necessidade tanto feminina quanto masculina de se cuidar, quer seja do ponto de vista da saúde, da higiene quanto da sedução.

Então, que tal dar mais valor ao desejar e ser desejada do que perder tempo com pequenezas que tornamos enormes e que acabam sendo um grande impedimento para a felicidade e realização?

Inventar dor é uma especialidade nossa. Para que tornar a vida mais difícil do que precisa ser?

marcia