[Matéria de Capa] Carina Fontes: de corpo e alma na Arquitetura

 Fotografia Paula Castro        Edição de moda Davi Morilla Jr.

O mundo, às vezes, conspira a nosso favor. E foi o que aconteceu com a arquiteta Carina Fontes. Aos 18 anos, ela começou a trabalhar como secretária em um escritório de Arquitetura e não imaginava o que o destino lhe reservava: uma graduação, uma profissão apaixonante e uma ‘mãe’ para a vida toda.

Não foi fácil, mas, com muita competência e esforço, Carina correu atrás e hoje é uma das arquitetas mais reconhecidas de Santos, com trabalhos de destaque pelo mundo e uma forma única de enxergar soluções para os desafios que a vida lhe propõe. Conversamos com ela para entender melhor como ela chegou na Arquitetura e conquistou seu espaço.

(Paula Castro) Studiobox Selecionadas 023
Revista Studiobox – Como a Arquitetura surgiu na sua vida?
Carina Fontes – Comecei a trabalhar em um escritório de arquitetura em 1996, como recepcionista e secretária da Irene Torre. Mas não foi por causa da Arquitetura, eu fui porque eu precisava trabalhar, ganhar dinheiro e foi o emprego que surgiu.
Eu tinha feito um colegial técnico em Processamento de Dados e via um futuro nisso. Nessa época, eu não sonhava, nem imaginava na minha vida, fazer Arquitetura nem nada parecido. Eu atendia telefone, organizava algumas coisas e nem tinha computador na minha sala, então, eu não gostava muito, achava muito parado.

E qual foi a solução?
Comecei a ‘encher o saco’ da Kátia [Dolabella, que era estagiária da Irene Torre na época] quando não tinha nada para fazer e ficava vendo ela trabalhar. Eu achava tudo muito bonito, e perguntava se eu não poderia fazer algo para ajudar. Então, ela começou a me ensinar a fazer algumas coisas no papel vegetal, mexer com as canetas nanquim…
Olhando ela fazer, aprendi a desenhar no computador e aos poucos, meio sem querer, eu fui tendo contato com esse universo de projetos e desenho e comecei a tomar gosto pela coisa.

(Paula Castro) Studiobox Selecionadas 001

O que a Irene achava disso?
Quando ela descobriu, me incentivou muito. Ela falava que eu tinha que fazer faculdade de Arquitetura, que eu levava muito jeito para isso.
Mas, na época, eu tinha 18 anos, não tinha dinheiro para pagar uma faculdade e precisava trabalhar. A Irene me ajudou muito, disse que pagaria minha faculdade e me deu toda a força do mundo.

E aí você topou o desafio.
Eu prestei o vestibular, passei e entre de corpo, alma, coração e tudo o mais nessa oportunidade que se abriu para mim. A partir daí eu nunca mais saí.Trabalhei com a Irene durante 12 anos, desde antes de entrar na faculdade até uns cinco anos depois de formada. Depois trabalhei sozinha, montei meu escritório e estou aqui até hoje. A Arquitetura me escolheu e eu a recebi de braços abertos.

(Paula Castro) Studiobox Selecionadas 037

Como foi abrir o seu próprio escritório depois de tudo isso?
Estou com o escritório montado desde 2010, mas me formei em 2003. Desde então eu trabalho e tenho clientes. Na verdade, antes de me formar eu já atuava na área, fazia algumas coisas para alguns professores. Antes de abrir o escritório trabalhei com a Irene, como sócia, e estou no mercado desde 96.

Como é a sua relação com a Irene?
Ela foi a minha grande escola e minha incentivadora. Ela é uma enorme referência pra mim. Eu sempre digo isso, ela é uma pessoa que mudou a minha vida, foi um divisor de águas. Acima de tudo, acima da profissional, ela é e sempre será a mãe que o universo me deu de presente. Ela mudou completamente a minha vida.

(Paula Castro) Studiobox Selecionadas 044

E você se apaixonou pela Arquitetura?
Ao longo desses 20 anos, desde que eu comecei a ter contato com a arquitetura, trabalhando como recepcionista, fui aprendendo, caí na prancheta, fui pro computador, comecei a mexer nos programas… E eu comecei a ver o quanto a arquitetura é importante na vida das pessoas. Muita gente acha que arquitetura é só decoração, arquitetura de interiores… Mas ela tem um valor muito grande, até na história da humanidade. Se a gente pensar em toda a evolução da humanidade, temos os grandes marcos arquitetônicos, as grandes construções, que são até hoje uma referência das cidades, das épocas… É algo que faz parte da história ds civilizações.

Você já tinha experiência no escritório quando entrou na faculdade. Como foi essa experiência?
Aquilo era parte do meu dia a dia: trabalhar com os projetos, passar a limpo, acompanhar a rotina. Então, o começo foi muito simples, as coisas foram acontecendo naturalmente. Eu ajudava meus amigos, que ainda estavam aprendendo a usar as ferramentas. Eu já desenhava no CAD, enquanto as pessoas estavam aprendendo a usar o escalímetro. No final do primeiro ano eu me tornei monitora, ajudando os professores, e recebia um salário da faculdade. Foi bem legal.

(Paula Castro) Studiobox Selecionadas 018

E o início da sua carreira?
Minha carreira foi uma grande oportunidade que surgiu na minha vida, que a Irene me apresentou. Vi como a grande oportunidade da minha vida, de estudar e de ter uma profissão pela qual eu me apaixonei. E eu tinha certeza que isso ia mudar a minha vida e, de fato, mudou.
Eu enfrentei alguns desafios, mas nada diferente do povo brasileiro em geral. Eu acordava muito cedo, trabalhava o dia todo no escritório e estudava à noite. Eu não tinha computador, então eu saía da faculdade, voltava pro escritório para fazer os trabalhos de madrugada, chegava em casa às quatro da manhã, dormia um pouco, tomava um banho e às 8h estava de volta ao escritório.

Valeu a pena?
Eu sempre fui muito dedicada, muito focada naquilo que eu quero. O resultado veio no final da faculdade, quando me formei como a melhor aluna de todas as turmas, com as melhores notas. Depois de formada, a Irene me chamou pra ser sócia dela no escritório. Eu via muitos colegas saindo da faculdade sem saber o que iam fazer da vida, sem ter feito estágio, eu já tinha sete anos de experiência em um dos melhores escritórios da cidade, no qual eu estava me tornando sócia.
Toda grande mudança traz coisas boas e ruins, mas o saldo é sempre positivo. Lógico que ninguém quer sofrer, mas depois daquilo vencido fica sempre uma lição. Hoje eu agradeço a Deus por tudo – bom ou ruim – que aconteceu na minha vida, porque é isso que nos constrói.

(Paula Castro) Studiobox Selecionadas 011

Depois de cinco anos de sociedade, você resolveu abrir seu próprio escritório. Como foi esse processo?
Eu tinha que caminhar com as minhas próprias pernas. É lógico que isso gera medo e insegurança, mas segui em frente e continuei acreditando nos meus valores e as coisas foram acontecendo. Aos poucos, a minha clientela começou a aumentar e, em 2010, vi que precisava montar o espaço físico do escritório. Eu já tinha colaboradores, trabalhávamos em home office, mas achei que era a hora certa para dar esse passo. Aluguei uma sala e consegui montar uma equipe muito bacana, com uma sinergia muito grande naquilo que a gente faz e acredita. E eu tenho muito orgulho da equipe que eu estou formando.

Qual é a especialidade do escritório?
Hoje a gente tem um pouco de tudo, mas o maior volume é de projetos residenciais. Também trabalho com alguns projetos corporativos, escritórios, consultórios, salão de cabeleireiro, lojas… Temos uma gama bacana de opções e isso nos motiva. Toda vez que entra um projeto diferente precisamos pesquisar e crescer.

(Paula Castro) Studiobox Selecionadas 039

Qual projeto foi o seu maior desafio até hoje?
Um hospital em Luanda, capital da Angola, na África. É um hospital de pequeno porte, mas completo, em um terreno de cinco mil m2, que estamos desenvolvendo nos últimos dois anos. Estamos para começar a obra, e tem sido um grande desafio. Eu brinco que não sei se eu era sem noção ou muito metida quando entrei nessa, porque não tinha muita noção da grandeza da coisa. É um projeto muito complexo e técnico, que me deixou de cabelo branco, literalmente. É sério! Comecei a ter cabelos brancos depois desse trabalho. Parece engraçado, mas não é.

Quais foram os principais desafios desse projeto?
Foi muito difícil, tive que estudar, comprar livros especializados, fazer cursos… Estou terminando uma especialização em Arquitetura Hospitalar, que comecei por causa desse projeto. Além disso, ainda tem o fato de ser em outro país, ter que entender outra cultura, muito rica e cheia de particularidades.

(Paula Castro) Studiobox Selecionadas 052

Mas é nos desafios que a gente se realiza, né?
Pois é! Mesmo sendo muito desafiador, é um dos projetos que mais me trouxe alegria. Não dá para descrever a satisfação de ver esse projeto pronto. Fazer um projeto baseado em conceitos de humanização, pensando no paciente e na família, e poder melhorar esse período difícil da vida das pessoas é uma das maiores alegrias da minha vida. É um projeto muito particular, não tem um andar igual ao outro, é um lugar que não para e não pode ter falhas, porque tem vidas que dependem disso. Me sinto abençoada por ter tido essa oportunidade profisional na minha vida.

Como é o seu processo criativo?
Não tem muito segredo. Procuro ouvir muito e estar atenta ao que o cliente está me dizendo. Acho que, hoje em dia, perdemos um pouco a coisa do ouvir, a gente quer falar muito mas esquece de ouvir. Tem coisas que o cliente diz e nem sabe o que está dizendo e outras a gente precisa buscar nas entrelinhas. Normalmente, o cliente não sabe ainda o que ele quer, ou não sabe te dizer de forma clara. Então uso minha intuição e tento me conectar com o que conversamos, além de fazer uma pesquisa em cima do tema, principalmente em projetos comerciais.
Trabalhamos para pessoas, não tem jeito. Posso estar fazendo um projeto para um empresa, mas são pessoas que vão usar aquele espaço, trabalhar, frequentar… A gente não pode perder esse foco, é o mais importante de tudo.

(Paula Castro) Studiobox Selecionadas 027

Você curte acompanhar obra?
Gosto muito. Não é fácil, tem muitos problemas e desafios. Falta mão de obra qualificada, falta profissionalismo por parte das empresas que prestam serviço. E esse é o grande desafio, a qualificação. Gosto de executar a obra porque consigo ter um controle maior e fazer com que o projeto que a gente desenvolveu seja mais fiel àquilo que pensamos lá no início. Tenho uma equipe pequena de execução, que está comigo há alguns anos, e são pessoas incríveis e profissionais diferenciados.

Você imaginava chegar onde chegou? Se sente realizada?
Me sinto muito feliz com as coisas que já trilhei, mas acho que ainda tenho muito a aprender. Todo dia eu aprendo, e tem muita coisa ainda que eu quero fazer. Uma das grande realizações foi ter a oportunidade de fazer projetos fora do país, com outras culturas, como o projeto do hospital em Luanda. Agora estamos fazendo um projeto de interiores em Miami. É uma experiência muito gratificante, ver o teu trabalho chegar a essa distância, ser visto por outro país, ter contato com outros fornecedores. Esse projeto foi publicado em um livro só com projetos na Flórida, e o reconhecimento nos deixa muito feliz.

(Paula Castro) Studiobox Selecionadas 033

E os planos para o futuro?
Eu gosto de estudar e pesquisar. Estou terminando minha terceira especialização e já quero fazer outra. A vida é isso, aprender. E na profissão da gente não pode ser diferente. Para o futuro, quero fazer mais trabalhos fora do Brasil. É um campo que está se abrindo e pretendemos desbravar essas fronteiras. Não é um caminho fácil, é preciso muita dedicação e investimento.
O futuro não é só fazer mais, é fazer melhor. Melhor pra gente, pros clientes, entregar projetos melhores. Essa é a minha grande realização. Buscar sempre um trabalho de excelência, em todos os aspectos, está no DNA do meu escritório. Não importa se o projeto tem 10 ou 10 mil m2, a gente faz com a mesma paixão, amor e dedicação. E ver o cliente vibrar e ficar feliz com o que a entrega não tem dinheiro que pague.

juliana