Matéria de Capa: Dra. Rose Marques

Natural de São José do Rio Preto, a cirurgiã dentista Rosemeire Marques adotou Santos como sua cidade e é conhecida pelo seu talento no uso da tecnologia na Implantodontia e Estética. Apaixonada pela Odontologia e por seus pacientes, Rose acredita que a profissão é uma vocação e missão de vida.

Por isso, ela está sempre estudando.Possui mais de 170 certificados de cursos de especialização e aperfeiçoamento e de participação em congressos, palestras e workshops no Brasil e no Exterior. Contribuiu em sua área com diversas inovações, como seu pioneirismo em reabilitação oral em 24 horas.

Além disso, Rose realizou diversos cursos de hipnose, acupuntura, neurolinguística, reiki e relaxamento para poder proporcionar aos seus pacientes o máximo de afetividade e conforto.

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Revista Studiobox – Sua relação com a Odontologia vem desde cedo. Como foi sua infância?
Rose Marques – Minha infância foi difícil, porque eu tive cárie de mamadeira. É causada pelo excesso de açúcar do achocolatado que é colocado no leite das crianças, que fica no dente e faz com que apodreçam. Eu não sorria, porque tinha vergonha desses caquinhos pretos que eram meus dentes. Não abria a boca, nem tirava fotografias. Naquela época, não existia a denominação de bullying, mas as outras crianças tiravam sarro dos meus dentes.

Isso afetou bastante a sua autoestima.
Com quatro anos de idade os meus dentes eram todos pretos e meu cabelo era crespo, muito armado, e eu tinha dificuldade para penteá-lo. Me sentia mal na escola, tinha vergonha. Aos oito anos, meus dentes permanentes nasceram e eu finalmente tinha dentes brancos, mas, assim que nasceram eu cai de bicicleta e fraturei 80% do incisivo central, que é o dente bem da frente.

E como você lidou com o problema?
Uma tia me levou ao dentista e ele disse que não precisava fazer nada, que o dente ia crescer de novo. Hoje, sendo dentista, eu entendo melhor que ele quis dizer, mas isso acontece se é uma pontinha fraturada, não 80% do dente. No meu caso, jamais voltaria ao normal sozinho. Assim eu fiquei até os 14 anos e isso acabou com a minha autoestima na adolescência. Imagina, adolescente e sem o dente da frente!

O que aconteceu, finalmente?
Quando fiz 14 anos, minha irmã Sônia Mara me levou em um dentista em Bragança Paulista, chamado Caetano, que reconstruiu o meu dente com resina e um aparelho de luz fotopolimerizável. Ele tinha um espelhinho no refletor, então, conforme ia esculpindo meu dente com a resina, eu observava. Achei incrível ele conseguir devolver um pedaço do meu corpo para mim. Quando vi meu dente inteiro, e que eu podia abrir a boca e sorrir, foi o momento em que eu virei dentista.

Como foi o início da sua carreira?
Comecei a trabalhar no sexto semestre da faculdade, em um consultório improvisado na cidade de Doverlândia (GO), onde meu pai morava. Era uma cidade bem carente, com cerca de quatro mil habitantes, sem asfalto e sem luz elétrica. A energia da cidade era gerada por um motor estacionário de caminhão. Lá, improvisei um consultório no meu quarto. Desmontei a cama, coloquei atrás do armário e passei a dormir no sofá.

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Não tinha dentista na cidade quando você começou?
Doverlândia era uma cidade bem carente e não tinha nenhum dentista, por isso, o pouco que eu sabia era suficiente para ajudar as pessoas. Quando elas tinham dor de dente, procuravam um médico no hospital, que era o meu tio. E ele falava: “Rose, se forma logo, para você me ajudar, porque eu não sou dentista”. Ele me deu muito incentivo. Assim que eu improvisei o meu consultório, as pessoas que chegavam com dor de dente ele mandava para mim, para eu tratar.

Como conseguiu esse seu primeiro consultório?
Eu precisava trabalhar para ajudar o meu pai, que estava em uma situação bem difícil. Fui pagar o aluguel da república e uma pessoa perguntou se eu queria comprar um consultório (conjunto com cadeira e outros equipamentos necessários para o funcionamento de um consultório odontológico). Me interessei, cheguei lá e estava tudo em uma garagem, empoeirado e estragado. Mas tinha um consultório de um modelo antigo, que nunca tinha sido usado. Foi o que eu comprei, com 15 dias para pagar, e ele me deu a cadeira velha de presente, para desocupar o espaço.

Foi um bom negócio, então.
Sim. Achei um amigo que tinha uma caminhonete, levei o consultório usado para arrumar, lixei e pintei. Anunciei em cartolinas nas dentais e, em uma semana, vendi pelo preço que paguei no outro, que estava na caixa. Então a minha cadeira “nova” saiu de graça.

Você estudava em Lins (SP). Como o consultório chegou em Doverlândia?
Consegui um caminhão de boi, de um frigorífico, que ia para Goiás buscar os animais e levou o consultório de graça. Chegando lá, eu mesma fiz a instalação da cadeira, com o manual, consegui ligar o compressor e comecei a atender.

E a resposta da população foi boa?
Atendendo apenas nas férias, atendi 82 pessoas e ganhei 1500 reais. Eu falava que ia cobrar bem baratinho porque não estava formada ainda. E com esse dinheiro eu comprei o meu primeiro Fusca. Assim, eu tinha carro para ir para a faculdade, porque eu morava a 7 km de distância e era morro acima. Eu tinha que carregar aqueles instrumentais pesados, e eu era a única pessoa da faculdade que não tinha carro.
A faculdade era particular e tinha uns 80 alunos, todos com boa condição financeira. Fiquei muito muito feliz com o meu primeiro carro e aprendi que trabalhando e ajudando as pessoas eu também seria recompensada.

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E como foi quando você se formou?
Assim que me formei, vendi o Fusca, que jamais conseguiria chegar em Doverlândia, e comprei o meu primeiro aparelho de Raio-X.
Eu estudava muito, fechava as notas em outubro, ia para Doverlândia e trabalhava nas férias. Assim, quando me formei já tinha uma clientela formada: uma cidade inteira me esperando. Desde que me formei, a minha agenda está lotada.

O que é a Odontologia para você?
É um dom de Deus. E é um privilégio ter esse dom, porque eu sei como a pessoa se sente. Eu devolvo um pedacinho do corpo para a pessoa, da mesma forma que aquele dentista me devolveu um pedaço quando eu tinha 14 anos. A Odontologia é um grande amor, sou apaixonada por aquilo que eu faço. O trabalho para mim é uma grande diversão, as pessoas me abraçam, me agradecem, eu fico muito feliz.

Você teve alguém que te ajudou a realizar tudo isso?
A pessoa a qual sou mais grata na minha família é o meu pai. Ele foi um fazendeiro próspero, mas fomos vítimas de uma enchente e meu pai perdeu tudo que tinha. Ficamos pobres, mas ele não tirou os quatro filhos da escola. Todos os meus irmãos são formados, médico, engenheira, e eu sou dentista.
Para pagar a faculdade, meu pai trabalhou como leiteiro, acordava todo dia às três e meia da manhã e ia nas fazendas puxar leite para levar para o laticínio. O dinheiro que ele recebia com sua caminhonete remendada ia todo para a minha faculdade.
Se hoje eu sou dentista é graças ao esforço do meu pai, que mesmo frente a uma grande adversidade, nunca desistiu da gente. Ele foi muito batalhador, íntegro e honesto. Devo muito a ele.

Teve algum colega dentista que te ‘deu uma força’ no início?
No começo da minha carreira aqui em Santos tive o Dr. Luiz Antônio Prantera Martin, que infelizmente já faleceu. Ele era especialista em ortopedia funcional dos maxilares e biocibernética bucal, além de meu vizinho de porta. Um dia ele entrou no meu consultório para fazer um raio-x da mãe dele e achou as próteses de porcelana que eu fazia bonitas. Acabei fazendo as da mãe dele, que virou minha paciente. A partir daí ele passou a me indicar muitos pacientes, mesmo eu sendo bem jovem, e me ajudou a formar a minha clientela na cidade.

Seu trabalho também teve muita influência dos dentistas alemães, certo?
Em 1997, eu conheci um alemão chamado Max Pfundtner, que me conseguiu um estágio na Alemanha. Ele me ajudou a ir para lá, mesmo com pouco dinheiro, e esse estágio mudou totalmente a minha visão de Odontologia. Depois disso, passei a ir praticamente todos os anos para a Alemanha para me atualizar.

E aqui no Brasil, quem é a sua maior inspiração?
Em 2000, conheci o melhor dentista do Brasil, o Dr. Paulo Kano, que considero um dos melhores do mundo. Ele mudou a minha concepção de como fazer um dente, tornando o sorriso mais natural. Ele revolucionou a Odontologia com os cursos dele, e foi um grande ‘pai odontológico’ para mim.
Recentemente, fiz um curso com o Dr. Kano e ele está, mais uma vez, 50 anos na nossa frente. Ensinou uma nova técnica, chamada Cllones, com a qual podemos fazer cópias de dentes verdadeiros. Podemos escanear dentes, imprimir na impressora 3D e colocar no paciente.

Você fez muitos cursos fora do Brasil. O que isso acrescentou na sua carreira?
Eu já fiz cursos no mundo inteiro, China, Japão, Alemanha, Estados Unidos, Liechtenstein, Suíça… Mas, quem mais acrescentou na minha carreira foram os alemães. Desde a primeira vez que fui lá. É incrível a precisão, como tudo funciona, como eles fazem tudo o mais correto possível. E eu procuro fazer isso também no meu dia a dia. Devagar, montei uma estrutura bem parecida com o que eu vi por lá. Hoje, inspirada pelos alemães, trabalho com essa tecnologia, para resolver questões difíceis com poucos procedimentos, de uma maneira confortável para o paciente e sendo o menos invasiva possível.

Por que se aprofundar em áreas fora da odontologia, como acupuntura, neurolinguística e reiki?
Quando eu estava na faculdade, queria publicar um trabalho científico sobre algo que fosse inédito nas jornadas acadêmicas. Eu praticava kung-fu, e na biblioteca do meu professor vi um livro de acupuntura, onde achei uma técnica para anestesiar os dentes e resolvi apresentar esse trabalho na jornada científica.
A neurolinguística descobri quando estava na faculdade, aos 18 anos. Fiz um curso chamado DOM (Desenvolvimento e Orientação Mental), que me ajudou muito a fechar as notas na faculdade, estudar para as provas, alcançar as minhas metas. Foi uma busca pessoal minha, sempre li muito sobre psicologia.

Isso melhora a forma com que você se relaciona com os seus pacientes?
O paciente não é só dente, existe um ser humano por trás desse sorriso. E cada pessoa tem uma expectativa e um anseio diferente. Alguns pacientes têm muitas queixas, e é importante ter uma sintonia com eles para captar o que realmente querem. Um diferencial do meu trabalho é essa facilidade, graças a todos esses treinamentos que fiz na área de humanas.

Qual foi a maior dificuldade que encontrou ao abrir seu consultório?
Em 1997, fui pioneira no sistema Targis Vectris no Brasil, que fazia os dentes sem metal. Eu importei esse aparelho da Alemanha e achei que ele faria tudo sozinho, mas descobri que, fora a fortuna que eu paguei no aparelho, eu teria ainda que montar o meu próprio laboratório de prótese.
Eu não tinha dinheiro para fazer encanamento, então eu improvisei e coloquei em cima da privada do banheiro, eu recortava o gesso e dava descarga. Hoje o meu laboratório é de ponta, com tecnologia 3D, scanner, não precisa nem tirar molde mais.

Valeu a pena?
Em 25 anos, eu atendi – e ajudei – mais de sete mil pessoas. Que passavam pelos mesmos problemas que eu passei, ou mais graves. Então, nossa, como valeu a pena!
Um dia uma paciente falou “Doutora, eu quero que você sinta a felicidade que está me dando de volta”. E eu sinto a felicidade do paciente de poder voltar a sorrir. Nesses anos, fiz 47 mil dentes, tenho tudo guardado desde o meu primeiro paciente.

Se fosse começar do zero novamente, o que faria de diferente?
Eu faria tudo igual. Eu trabalhei mais do que os outros, cerca de 16 horas por dia por 20 anos. Só diminui a carga horária depois que o meu filho nasceu. O que eu faria de diferente? Teria abraçado e beijado mais o meu pai, agradecido mais enquanto ele estava vivo.

Qual foi seu maior desafio profissional?
Atendo casos grandiosos, coisas bem sérias e graves, até pessoas que vêm de longe, do Japão, Portugal, Estados Unidos… Atendo muita gente que vem me procurar como uma última esperança. Então, cada dia é um novo desafio. Às vezes, a gente acha que um caso é tão fácil, que já fizemos igual tantas vezes, mas nunca um caso é igual ao outro. Temos que estudar, se atualizar e reciclar para poder vencer os desafios de cada dia.

Imaginava chegar onde chegou?
Realmente, eu não imaginava. Uma pessoa que começou a carreira no interior de Goiás, em uma cidade que não estava no mapa… Hoje, eu sinto o reconhecimento quando recebo presentes, uma cartinha ou um texto no meu site agradecendo. Eu adoro! Mas não esperava, às vezes penso que eu nem mereço tanto. Mas me sinto realizada, embora ainda tenha muita coisa para ser feita, ainda sou bastante jovem.

Como você vê o mercado de Santos, gosta de trabalhar aqui?
Eu adoro viver em Santos, acho uma cidade aconchegante. É litorânea, mas tem cara de inteiror, e conta com toda a estrutura de uma capital. A cidade me acolheu de braços abertos! Em 2013, eu recebi a medalha de honra ao mérito da Prefeitura de Santos, o que me deixou muito lisonjeada. Sobre o mercado, se a pessoa tem coragem de trabalhar, se trabalha de fim de semana e feriado, de noite… Ou seja, se trabalha quando os outros querem descansar, acho que não falta mercado.

Você tem algum hobby? Como se diverte fora da rotina do consultório?
Eu já fiz voo livre, fui a primeira mulher sócia da Associação de Voo Livre da Baixada Santista. Também faço mergulho, mas meu principal hobby, que eu mais adoro na minha vida, é dançar. Eu amo dançar.

E o seu maior orgulho?
É ter honrado o sacrifício que meu pai fez para que eu conseguisse me formar. Antes de morrer ele já tinha bastante orgulho de mim, adorava dizer para os amigos que tinha uma filha dentista. Também não posso deixar de mencionar que tenho um filho maravilhoso, um ser humano íntegro, trabalhador, extremamente amoroso e que tem o mesmo nome do meu pai, José Marques.

Tem planos para o futuro?
Acho que íamos precisar de umas três ou quatro edições da revista para eu enumerá-los. Sou uma pessoa bastante ativa e sempre estou pensando no futuro e em novas metas, e trabalho muito para atingi-los.

Conta alguns para a gente, então.
Um deles é contribuir para uma instituição e tratar dos dentes das pessoas gratuitamente, por meio de uma escola. Sempre sonhei em ter uma escola onde pudesse ensinar as pessoas a trabalhar e ao mesmo tempo felicitar as pessoas com um tratamento que elas não tenham um poder aquisitivo para pagar.
Outra meta é outro livro, que não vou falar muito para não estragar a surpresa, mas que será bastante útil. Pretendo também continuar com as minhas palestras e cursos, acho muito bacana poder difundir as ideias e incentivar os novos profissionais. Isso é muito importante para mim, poder incentivar e servir de modelo.

O que você gostaria de falar para quem está começando agora?
Com garra, determinação, força de vontade e sem preguiça a gente consegue atingir os nossos objetivos. Então, a mensagem que deixo para os novos dentistas é essa: não tenham preguiça. Arregacem as mangas e trabalhem muito e com amor.

juliana